“Tem vivo que está sobrevivendo, tem vivo que está morrendo. Mas vivo vivendo, só pela arte. Não tem outro caminho.” É isso que defende a médica geriatra Ana Claudia Quintana Arantes, que estuda cuidados paliativos há mais de 20 anos. Para a doutora, o teatro é um espaço similar ao consultório, já que valores como escuta, presença, conexão e verdade se apresentam em ambos. Talvez seja essa comunh a parceria e grande amizade que surgiu ao ver a atriz Letícia Cannavale dando vida a ela no espetáculo Histórias Lindas de Morrer.
Baseada no livro homônimo de Arantes, a peça reúne depoimentos de pacientes em cuidados paliativos durante suas jornadas rumo ao fim. Mais do que falar sobre morte, doença e tragédia, reflete-se sobre vida, esperança, cuidado e amor. “Entramos em contato com nossos lutos e perdas e formas de estar existindo. Compartilhamos que estamos vivas pela arte. É a única maneira, a única grande revolução possível de ser vivida”, revela Cannavale.
Letícia conta que estava buscando, ao lado do marido e diretor Fernando Nitsch, um novo texto para que pudessem trabalhar juntos no teatro. Então, voltando de uma viagem a Goiânia, compraram o livro no aeroporto, com base na indicação de um amigo do casal. Choraram ao longo do voo retornando para São Paulo por conta da delicadeza e potência da obra e souberam, imediatamente, que queriam adaptá-la para os palcos.
“Tinha que ser um tema que nos tocasse e fosse importante para nós dois”, explica. “O Fernando perdeu o pai e eu perdi a minha avó, e aquela leitura nos inspirou. Fomos atrás da Ana Claudia para entender se também havia essa vontade [de transformar o livro em espetáculo], e foi tudo perfeito.’
A médica admite que teve receios sobre a adaptação. Por conta de questões burocráticas e da natureza de produção, deixou de lado sua expectativa e ficou à espera de ver como seria o resultado. “É uma vala comum legendar o óbvio, enfatizando e indicando os momentos de maior emoção para o público. É uma coisa totalmente diferente do que eu escrevo, no qual cada leitor vai ter o seu lugar de emoção”, justifica.
Durante o processo, a médica convidou toda a equipe envolvida no espetáculo para a sua casa, em uma tentativa de estabelecer conexão.
“Por mais que tenha tido falhas, eu olhava para ela e dizia: ‘Eu concordo. Espera, eu já falei isso! Sou eu falando ali!’. É uma experiência 3D de você se ver. Na hora, falei que aquilo devia ser como uma experiência de quase morte, quando você sai do corpo e se vê. A minha alma se desdobrou em dois corpos, porque a Letícia não está me interpretando, ela me encarna, me incorpora ali. É um negócio muito louco”.
Cannavale revela ter pesquisado tudo que podia. Viu entrevistas, assistiu vídeos e procurou conteúdos relacionados à Ana Claudia para conhecer melhor sua personagem. “Queria entender a alma que conta essas histórias e trazer essas pessoas para o coração de quem está assistindo”, diz. “É uma homenagem para aqueles pacientes, para aqueles que já partiram.”
Ela diz que se esquivou de uma tentativa de caricatura para valorizar o mais íntimo de uma construção delicada e sutil.
“Descobri que a Ana Claudia é uma mulher extremamente solar quando conta essas histórias. Ela é divertida, bem humorada, com uma ironia muito inteligente e muito interessante. A gente tem que botar essa luz no olhar, esse brilho no olhar, nessa paixão por contar histórias, porque ela é apaixonada pelo tema e pelo que conta.”
Entre a medicina e a arte, a vida
O elo entre as histórias de Ana Claudia Quintana Arantes e Letícia Cannavalevai além de uma personagem. Ambas acreditam que a vida sem arte não vale a pena ser vivida. A médica paliativa ainda defende que a Medicina é, por si só,u uma forma de arte. “Primeiro, fazemos um exame físico chamado ectroscopia, em que você observa o paciente. E, depois, a anamnese, que é a história clínica que só existe a partir da escuta. Se ninguém escuta, não existe história”, argumenta.
“Se o profissional da medicina não sabe ver e nem ouvir, ele não não faz Medicina. Ele está fazendo alguma coisa técnica em relação às doenças possíveis que o paciente pode ter, faz um diagnóstico, um tratamento, mas é uma linha de pensamento muito empobrecida. Agora, quando você aproxima a medicina da arte, você vai para os costumes de antigamente, em que não tínhamos recursos, então examinavam os pacientes com o corpo, colocando o ouvido no peito dele para ouvir seu coração, provava urina para saber se era diabético… os médicos usavam os sentidos para poder cuidar de alguém, e isso tem tudo a ver com arte.”
Com sete livros publicados, ela ainda recorre à escrita como forma não só de expor o seu trabalho, como de existir no mundo. “Tenho uma relação com a escrita desde a adolescência, escrevo para poder sobreviver nesse mundo. Tem vivo que está sobrevivendo, tem vivo que está morrendo, mas vivo vivendo, só pela arte. Não tem outro caminho”, garante.
A atriz lembra que o processo de cura promovido pela arte faz parte de sua própria trajetória. “Fiz um trabalho na faculdade em que íamos para os hospitais com os Doutores da Alegria, na pediatria, e contávamos histórias para crianças enfermadas e seus familiares. Na semana seguinte em que voltávamos, a criança e as famílias estavam melhores. Levávamos músicas e poemas, e era como uma prescrição médica. Os Doutores da Alegria até prescreviam autores como Cecília Meireles; ler uma história; ou ouvir duas músicas para que eles melhorassem. Depois dessa experiência, entendi que toda vez que entro em cena, estou proporcionando essa cura para mim e para as pessoas com quem estou entrando em contato.”
Quando as cortinas se fecham
Ao contrário do que muitos acreditam à primeira vista, o trabalho de Ana Claudia não a torna insensível a partidas. Na verdade, como a própria doutora defende, ela sente – e sente muito. É intensa em suas relações, mas se recusa a ver a morte como um fracasso, uma negação a vida. Vê nela a vida em seu ato final. Entende que se dispor a viver é, em suma, se dispor a um dia partir.
“Lido com a finitude da forma como ensino: cuido das pessoas e as ensino o que exatamente significam os fins. Não é uma coisa leve e também não é uma coisa alegre, mas para mim é muito fluido. Embora seja uma correnteza avassaladora, eu sei mergulhar. Ainda dá tempo de fazer mergulhos profundos e falar sobre isso.”
Ela explica que é preciso ressignificar nossa relação com a morte, entendendo ela como um lugar de respeito, mas que sempre contará, também, com uma parcela de sofrimento.
“Eu sou uma pessoa gravemente viva, gravemente feliz e gravemente humana também. É isso: vou morrer. É um preço que está barato perto da vida que eu tenho.”
E, apesar de ter os pés no chão ao refletir sobre a morte, não reconhece ela como sua última aventura. “Existe vida depois da morte, é óbvio. Porque tenho certeza que o mundo não vai acabar no dia seguinte à minha partida. E sei que o sol vai nascer depois que eu morrer”.
Após acumular experiência em várias religiões, Cannavale tem ideias distintas quanto ao seu pós-morte. Mas, não está em busca de certezas. Quer aproveitar o mistério no presente. “Não estou muito preocupada com o que vai acontecer quando eu morrer. Estou mais preocupada em viver, fazer conexões potentes, transformar minimamente o que eu puder ao meu redor para uma evolução e para me aperfeiçoar enquanto ser humano, para ter mais sabedoria, para olhar às coisas ao meu redor, e para estar viva”, defende.
“Estou preocupada com minha arte, com o que eu escolhi fazer da vida, com tocar o coração das pessoas. Quero viver bem e aproveitar cada instante ao lado das pessoas que amo e que me acrescentam – e que eu possa acrescentar a elas também.”
A médica diz que o contato com pacientes paliativos, suas reflexões a respeito da morte e o reconhecimento do potencial vital da arte a mudaram para sempre: “Quando você enxerga a vida diferente, você se vê diferente”. E conclui: “Esse é o efeito colateral do História Lindas de Morrer: talvez passe a viver uma vida linda de viver”.
Fonte: Marie Claire