Há sofrimentos que precisam de arte para que a compreensão atravesse as fronteiras da mente e chegue nos sentimentos. Quando a dor ultrapassa a linguagem comum, ela exige outra gramática, aquela capaz de sustentar o tempo que não passa, de dar contorno à emoção que insiste, de oferecer som ao que permanece mudo.
A arte não elimina o sofrimento, mas o organiza. Não cura o luto, mas o torna um lugar minimamente habitável. E isso, muitas vezes, é o que salva. A música sempre soube fazer esse trabalho. Sua matemática precisa na organização e distribuição de som e silêncio desenvolveu, ao longo da história, formas rigorosas para lidar com o conflito humano sem simplificá-lo. Entre elas, a sonata, nascida na Europa do século XVIII, cuja estrutura se assemelha a uma experiência existencial.
A sonata organiza-se em movimentos que espelham o luto com precisão quase clínica. Na exposição, apresentam-se os temas. O primeiro se impõe como tônica: a perda. Incontornável. A pessoa não está mais. Tudo o que era cotidiano passa a orbitar essa ausência fundamental. Em seguida, a transição: a mente tenta se mover, explicar, negociar. Nada se fixa.
O segundo tema surge em tonalidade contrastante: a memória viva, intensa, excessiva. O amor que insiste mesmo sem corpo, sem toque, sem voz. A exposição se encerra quando se reconhece, mesmo sem palavras, que a vida já mudou de tom. O desenvolvimento, por sua vez, é o trecho mais longo e instável. Aqui, a dor trabalha. Os temas se fragmentam, reaparecem em variações imprevisíveis. Emoções modulam: raiva, culpa, ternura, exaustão. O corpo sente antes da consciência. Pode parecer que é desordem, mas, na verdade, é um modo caoticamente organizado para sua elaboração. A música oferece ritmo a esse caos interno, melodia à emoção.
Na recapitulação, os temas retornam, agora na tônica da vida que continua. A ausência permanece, a memória também, mas integradas. A tensão não desaparece; se resolve. O amor muda de função: deixa de tentar trazer de volta e passa a sustentar por dentro. Por fim, a coda assenta o movimento. Não encerra a música. Conclui o que precisava ser dito.
A arte pode dar forma ao luto. O tempo de duração de uma composição pode ser o primeiro passo. Um movimento inteiro pode se transformar numa estrada adiante da dor. O suficiente para que a música siga tocando – e a vida também.
ANA CLAUDIA QUINTANA ARANTES é médica formada pela USP, especialista em Geriatria e Gerontologia, Cuidados Paliativos e Psicologia do luto, além de escritora.