Vida Simples: Vergonha é remédio

(Foto: Freepik) Lidar com a vergonha começa quando a gente para de se esconder e permite que o outro nos encontre com dignidade

Você se lembra da última vez em que sentiu vergonha? Olhos baixos, corpo contraído, aquela urgência de desaparecer antes que alguém percebesse o que você queria esconder. O rubor subindo pelo rosto como um alarme involuntário.

A vergonha não nasce do que fazemos, mas do que somos quando a camada de proteção cai. Surge quando imaginamos que, ao mostrar nossa verdade, perderemos amor, respeito, admiração, lugar à mesa. E, no entanto, é justamente esse ponto vulnerável que guarda a chave de qualquer relação verdadeira.

Vivemos um tempo em que a vergonha se multiplicou. Não porque erramos mais, mas porque nos mostramos menos. Quanto mais administramos nossa própria imagem, mais acreditamos que só existimos quando estamos devidamente editados. Respiramos um ar que exige coerência, força, autocontrole e devolve julgamento permanente. Não há encontro real possível quando a alma precisa pedir desculpas por existir.

Outro dia, no saguão do aeroporto, uma mulher se aproximou devagar. “Doutora, eu queria dizer algo, mas tenho vergonha.” Perguntei se era de mim. Ela negou. “É de mim mesma.” Convidei-a a chegar mais perto. E ela veio. Contou que estava doente, cansada, temendo preocupar a família. Por fim, murmurou: “Eu não sei mais se sou alguém de quem se possa gostar”.

Ali, no barulho das partidas, a vergonha dela encontrou com meu olhar sem julgamentos. “Vergonha”, eu disse, “é você enxergar uma chance de melhorar o que sente e fechar os olhos para ela. Cuide-se e sua família não terá preocupação desnecessária”. Ela se emocionou, e ainda ruborizada, se despediu sorrindo.

Vejo isso todos os dias no limite da vida. Quem já não consegue se levantar sente vergonha. Quem precisa ser tocado para comer ou se limpar sente vergonha. Quem perde as palavras sente vergonha. Quem olha o corpo ferido e chora sente vergonha. Mas, no quarto silencioso onde a morte se aproxima, a vergonha pode, enfim, descansar, porque existe alguém dizendo, sem dizer: “Você continua digno”.

É impossível atravessar a vergonha sozinho. Sem o olhar que sustenta, ela vira exílio interior. A pessoa passa a administrar-se: oculta desejos, evita pedir ajuda, aprende a sobreviver em silêncio. Mas, quando alguém olha de verdade, algo se desfaz. A alma afrouxa. O corpo continua frágil, mas o coração se endireita.

ANA CLAUDIA QUINTANA ARANTES é médica formada pela USP, especialista em Geriatria e Gerontologia, Cuidados Paliativos e Psicologia do luto, além de escritora.

Artigo publicado em Vida Simples

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