Claudia: Minha mãe escolheu como viver — e também como partir

Legado de amor e coragem, desafiando a ideia de luta contra o câncer (Reprodução/Freepik)

Caras leitoras, esta é uma coluna difícil de escrever. Difícil porque é a história da minha mãe. E também porque é uma história que chegou ao fim. Maria de Fátima Galdino, “a baixinha”, tinha 1,49m de altura e uma força que nunca coube no corpo pequeno que habitava. Foi com essa força que atravessou a vida, inclusive enfrentando um câncer agressivo.

Quem era minha mãe

Fátima nasceu no Cariri paraibano e, aos 14, veio para São Paulo atrás de oportunidades. Fez família, se separou e foi mãe solo, trabalhou em três empregos ao mesmo tempo, mudou de casa várias vezes, até encontrar um lugarzinho seu, num conjunto habitacional na Zona Leste, construído em mutirão.

Aquela pequenininha carregou bloco, cimento e construiu, com outras mulheres e famílias, o cantinho em que viveu por 27 anos.

Já com os filhos crescidos, voltou a estudar, se formou e foi síndica do condomínio em que morava por 15 anos.

Enfrentou conflitos, ameaças, desrespeito, madrugadas com gente batendo à porta — até bomba teve. Mas ela passou por tudo isso do jeito dela: turrona, firme e sem recuar.

O diagnóstico

Em fevereiro de 2025, numa internação de emergência, descobrimos um câncer de intestino avançado. O tumor foi retirado, mas havia metástase.

O fígado já estava comprometido e a proposta médica era clara: quimioterapia pesada que poderia prolongar sua vida em alguns meses, mas à custa de sofrimento e perda de autonomia.

Dona Maria de Fátima sem autonomia? Não consigo imaginar! Minha mãe ouviu tudo, foi em mais de um médico e decidiu não fazer a quimio.

Muitos criticaram indignados a sua escolha. E os três filhos — eu incluso — a apoiaram. Respeitando a decisão por mais difícil que fosse. Porque não era desistência, mas uma escolha por passar o tempo que tinha do jeito que sempre viveu.

Depois da cirurgia, ela teve dez meses sem sintomas importantes. Voltou para casa, para a rotina de síndica, ainda que com cautela. Seguiu cuidando das suas coisas do seu jeito, acompanhada por cuidados paliativos.

O legado de uma vida

Em outubro, o corpo começou a dar sinais de cansaço. Sem um tratamento agressivo, quem agride é o câncer. O fígado entrou em falência, comer ficou difícil, o cansaço aumentou, a dor apareceu — mesmo quando ela fingia que não sentia.

Até que em 2 de dezembro de 2025, o câncer levou minha mãe, aos 67 anos. O dia estava ensolarado, perto de 17h. Uma chuva forte caiu, levando ela consigo.

Logo depois, o sol voltou a brilhar. Eu estava com ela. E na despedida o que mais impressionou foi a coerência.

A mulher que decidiu como criar os filhos, como sustentar a casa, como liderar uma comunidade inteira, decidiu também como partir.

Sem prolongar a própria dor para atender expectativas alheias. Sem abrir mão de quem sempre foi. A partida ainda me destroça. Mas junto da saudade existe um orgulho imenso da vida que ela construiu.

Uma perspectiva sobre o câncer

Falar de câncer costuma vir com discursos sobre luta, batalha, vitória ou derrota.

Como diz a médica paliativista Ana Claudia Quintana Arantes, que cuidou da minha mãe, representar o câncer como uma guerra não funciona porque não há vencedores ou perdedores no tratamento da doença, mas humanos com diferentes medos, esperanças e necessidades.

Minha mãe não venceu o câncer. Venceu a imposição de um sofrimento e a ideia de que não temos direito de escolher. Ela não foi guerreira, foi corajosa. E talvez essa seja a última lição da baixinha durona que me criou. A mais gigante de todas.

Fonte: Claudia / Deixa te falar…

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