Duas mortes, dois caminhos

Randy Curtis morreu com morte assistida. Minha mãe morreu sob sedação paliativa. Os dois tinham a mesma doença — esclerose lateral amiotrófica de início bulbar. A mesma trajetória previsível: a fala que se perde primeiro, a deglutição que falha, a respiração que se rende por último.

E mesmo assim morreram de modos diferentes. Esse é o ponto que me interessa: não a doença, que era a mesma, mas o que cada um, com sua família e sua equipe, conseguiu fazer com ela no fim.

O que cada uma é

Na morte assistida, o médico prescreve uma medicação letal que o próprio paciente terminal, lúcido e dentro de critérios estritos, autoadministra no momento que escolhe. A intenção do ato é provocar a morte. O agente final é o paciente. O tempo é definido por ele. Foi o que aconteceu com Randy: cinco minutos depois da medicação, ele fechou os olhos pela última vez.

Na sedação paliativa, a medicação não é dada para provocar a morte, mas para suprimir uma consciência submetida a sofrimento refratário. A profundidade da sedação acompanha a intensidade do sintoma; a morte, quando vem, é trazida pela doença, não pelo medicamento. A intenção é aliviar. O agente é a equipe, junto da família. O tempo é definido pelo corpo.

A distinção parece técnica, e é. Mas carrega uma diferença existencial que importa para quem fica.

Por que não é a mesma coisa com outro nome

A diferença não está no desfecho — em ambos os casos o paciente morre — mas em três planos:

A intenção. Na sedação paliativa, o objetivo é o alívio. A morte é prevista, aceita, não buscada. Na morte assistida, a morte é o objetivo direto.

A proporcionalidade. Na sedação paliativa, a dose é titulada contra o sintoma. Sobe quando o sofrimento sobe, estabiliza quando o conforto se estabelece. Esse princípio é a salvaguarda técnica que separa a sedação paliativa da eutanásia lenta. Na morte assistida, não há titulação: há uma dose suficiente para encerrar a vida.

A causa final. Na sedação paliativa, a doença continua sendo a causa da morte. Na morte assistida, o medicamento é a causa direta.

Essas distinções não tornam uma escolha melhor que a outra. Tornam-nas escolhas diferentes.

A mesma doença, dois desfechos

Randy e minha mãe partilharam a forma mais cruel da ELA. A bulbar é a que tira primeiro o que mais nos define socialmente — falar, comer, beijar, sorrir com clareza. É a forma em que o paciente assiste, lúcido, à própria desconstrução de fora para dentro. É também a forma em que a literatura mostra os pedidos mais persistentes de antecipação da morte, e simultaneamente a forma em que a sedação paliativa proporcional, bem indicada, oferece desfechos profundamente tranquilos.

Não foi a doença que decidiu. A mesma ELA bulbar admitiu dois caminhos. O que distinguiu foi o contexto — o repertório legal disponível, a rede de cuidado, a história biográfica, a convicção pessoal. Não existe doença que “exija” morte assistida nem doença que “se contente” com paliação. A qualidade do cuidado é o que define qual caminho fica de fato disponível.

Minha mãe disse não, e foi ouvida

Minha mãe recusou a gastrostomia. Disse uma vez, com clareza, e foi respeitada.

É um detalhe pequeno e não é. É o instante em que ela decidiu sobre o tempo que ainda queria ter. Não foi insistida, não foi convencida, não foi cansada até dizer sim. Recusou e a equipe a acompanhou até o fim com o que importava: alívio, presença, mão na mão.

Nem todo paciente no Brasil tem essa sorte. Ela teve.

Há uma simetria silenciosa entre ela e Randy. Os dois, lúcidos, dentro da mesma doença, exerceram autonomia sobre o próprio corpo. Randy escolheu encurtar o tempo final. Minha mãe escolheu não estendê-lo. Decisões diferentes, dentro de molduras legais e éticas diferentes, mas a mesma estrutura: pacientes que sabiam o que queriam, equipes que escutaram, famílias que sustentaram.

Por que a sedação paliativa é essencial

Em qualquer contexto — onde a morte assistida é legal e onde não é — a sedação paliativa permanece a resposta técnica obrigatória ao sofrimento refratário.

Ela é universal. Não depende de critérios de elegibilidade restritos, não exige prognóstico documentado em meses, não exige capacidade decisional preservada até o fim. Atende o paciente delirante, o paciente com demência avançada, o paciente que perdeu a fala, o paciente que nunca conseguiu verbalizar uma diretiva.

Ela respeita o tempo da família. Não impõe um momento. Permite a despedida, o ritual, o silêncio, a conversa que não foi feita. Dá ao luto o tempo de começar antes da morte.

Ela é o desfecho real da maioria das mortes bem cuidadas. Em ELA avançada, em câncer com sintomas refratários, em insuficiência de órgão em fase terminal, é a sedação paliativa proporcional, combinada com retirada de suportes não desejados e com respeito às recusas terapêuticas, que define o que famílias descrevem como “uma morte tranquila”. Não é alternativa de segunda linha. É a resposta técnica adequada.

Ela é eticamente sólida sem ser polêmica. Ancorada no princípio do duplo efeito, reconhecida pela bioética, pela medicina paliativa e pelo direito brasileiro. Não exige militância, não exige mudança de lei. Exige competência técnica e disposição para acompanhar.

Ela cuida de quem cuida. Permite que a equipe permaneça inteira no ato. Equipe que se sustenta no cuidado é o que sustenta o paciente até o fim.

Onde me posiciono — e por quê

Não sou contrária à morte assistida. Sou contrária à pressa com que ela é convocada para um país que ainda não garantiu o básico.

Antes de discutirmos quem tem o direito de antecipar a própria morte, precisamos garantir que todo brasileiro tenha acesso ao cuidado de todas as dimensões do sofrimento — físico, psíquico, social, existencial e espiritual. Precisamos de cobertura paliativa universal, manejo competente de sintomas refratários, integração entre atenção primária e cuidado especializado, suporte ao luto, apoio aos cuidadores, diretivas antecipadas conhecidas e respeitadas, recusas terapêuticas acolhidas sem barganha. Precisamos que a sedação paliativa proporcional seja conduta corrente em qualquer hospital do SUS, não privilégio de quem chega a um centro de excelência.

Sem esse piso, a discussão sobre morte assistida se desloca para um terreno perigoso. Quando o sofrimento existe porque a paliação faltou, oferecer antecipação da morte como solução é trocar uma falha estrutural por uma saída individual. O paciente que pede para morrer porque a dor não foi tratada, porque a família não foi apoiada, porque o serviço não chegou até a casa dele, não está exercendo autonomia plena — está respondendo a uma omissão.

Minha posição não é de recusa. É de ordem. Primeiro o cuidado integral, universal, competente. Depois — quando o sofrimento que sobra for genuinamente o sofrimento que a melhor medicina paliativa não alcança — a discussão sobre morte assistida poderá amadurecer no Brasil com a seriedade que merece. Será uma discussão diferente da que temos hoje, porque será feita a partir de pacientes que já foram inteiramente cuidados, e não a partir de pacientes que ainda não foram.

O que aprendi com as duas mortes

A morte de Randy me ensinou que há sofrimentos que não cabem inteiramente dentro do repertório paliativo, e que existem pessoas para quem a antecipação ativa é a única tradução possível da palavra compaixão. Não preciso concordar com o ato para reconhecer que, para a família dele, foi um ato de amor.

A morte da minha mãe me ensinou outra coisa. Que dizer não também é cuidar de si. Que respeitar esse não também é cuidar. Que existe uma forma de morrer em que o corpo encontra seu próprio ritmo, e a gente fica ali — chegando, ficando, segurando a mão — pelo tempo que precisar.

Randy precisou de cinco minutos. Minha mãe precisou do tempo dela. As duas mortes foram cuidadas. As duas foram amadas. Mas a sedação paliativa, junto do respeito às recusas, é o que cabe na medicina que pratico hoje, no país em que pratico. É disso que continuo querendo falar, ensinar e defender. Não porque a outra esteja errada. Porque esse cuidado precisa primeiro chegar a todos os brasileiros que ainda morrem sem ele. Esse é o trabalho deste tempo. O resto vem depois.

Respostas de 13

  1. Quando eu fui esclarecida sobre a sedação paliativa para o meu pai, eu fiquei apreensiva com a decisão, mas diante do sofrimento foi a melhor opção, sem que houvesse procedimentos invasivos que só prolongaram o sofrimento dele, mas infelizmente nem todos os pacientes conseguem ter esse tratamento e essa opção para uma passagem digna.

  2. Descobri o verdadeiro sentido da medicina paliativa quando meu pai de 83 anos, descobriu um câncer que não tinha mais cura. Quando me falaram de cuidados paliativos, meio que revirei a cara, mas depois percebi que é o que há de mais bonito a se oferecer no final da vida, e agora é primeira vez que ouço o termo sedação paliativa, não precisamos fazer isso com meu pai, tivemos sorte que ele no dia que oa sofrimentos se intensificaram e o tratamento paliativo deixou de fazer efeito, ele partiu, sorte mesmo porque não teríamos suporte para um asedação palitiava na minha cidade.
    Com relação a morte assistida, sempre achei que seria uma opção muito digna para alguém terminal, mas lendo o seu texto realmente ainda não estamos prontos para essa opção por aqui, já que falta o resto.

  3. Concordo. Temos muito a avançar na maneira de falar sobre um diagnóstico delicado, imagine sobre morte assistida! Mas acredito que reflexões como esta e as que estão nos seus livros, contribuem em muito para que a gente possa encarar a morte de forma mais natural e amorosa. Alem disso, levanta a necessidade de vivermos nosso presente mais que tudo!

  4. Parabéns pelo posicionamento. Também penso assim: antes de qualquer debate sobre morte assistida, o Brasil precisa garantir dignidade no viver e no cuidar. Sem acesso universal a cuidados paliativos, controle da dor, apoio às famílias e respeito às escolhas do paciente, corre-se o risco de chamar de autonomia aquilo que muitas vezes é abandono.

    Seu texto traz lucidez, humanidade e senso de prioridade: primeiro assegurar cuidado integral a todos, depois discutir temas tão delicados com maturidade e responsabilidade. Compartilho dessa visão, sua fala me representa. Obrigado

  5. Doutora, para a discussão sobre morte assistida amadurecer, ela deve ser plantada. Assim, pode ser cultivada – ou seja, discutida -, até que amadureça e possamos admitir uma legislação a respeito.
    Os defensores da morte assistida não estão agindo com pressa: apenas deram início à discussão. Sabemos que levará décadas para ser legalizada no Brasil – se for -, mas temos que dar o primeiro passo.
    Aliás, assim também ocorre com os cuidados paliativos: há quanto tempo a doutora batalha por sua implementação? Sei que faz bastante tempo – e li todos os seus livros.
    Sigamos juntos, por finitudes dignas!

  6. Sabe Ana, eu gostaria que você estivesse em programas de TV aberta, diários ou semanais, em horários matinais ou vespertinos, para que mais pessoas pudessem lhe ouvir e assitir sobre esse tema tão fundamental para nossas vidas e escolhas. Eu lhe sou grata, mas muito, porque consegui viver esse cuidado paliativo na despedida de minha mãe, há 1 ano.

  7. Querida Ana Cláudia,
    Sua escrita é sensível e nos traz reflexões à luz das dicotomias mais misteriosas…
    Vida e morte caminham juntas, e precisamos aprender a conversar sobre a finitude…
    Você é necessária, atemporal, presente e dotada de conhecimentos que se transformam em leitura obrigatória, sem pesar, mas com o olhar sempre voltado para dentro…
    Obrigada por tanto!!
    Carinhosamente,
    Elis Cláudia
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  8. Excelente e esclarecedor. Gratidão por seu trabalho, comprometimento e, sobretudo, por sua ética. Há AmoR no exercício da sua escrita, na sua fala e na medicina que a senhora vive e desenvolve. Bênçãos abundantes sobre os seus dias!

  9. Minha mãe teve sedação paliativa com respeito aos nãos e as escolhas dela sem pressão. Mas ISSO FOI EM 1983!! Meu marido Médico, eu enfermeira! Imagine o julgamento da comunidade ,numa cidade do interior do RS, por termos permanecido com ela em casa. Há 43 anos continuo acreditando em não prolongar o sofrimento. Parabéns pelo artigo.

  10. Perfeita!! Totalmente necessária!
    Todos deveriam ter acesso à cuidados paliativos diante de uma doença grave.
    Esse é o básico, digno

  11. Muito esclarecedor..
    Concordo totalmente com vc.
    Mas esse é um assunto que ainda me incomoda apesar de necessário; embora incomode cada vez menos.
    Pessoas como vc, que conseguem unir técnica e humanidade são difíceis de encontrar. Parabéns!

  12. Concordo em gênero, número e grau!
    Tão, mas tão, necessário que os cuidados paliativos atendam a TODOS, sem distinção, mas ainda um processo tão tímido no Brasil, infelizmente!

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