Há um verbo que aprendi a respeitar acima de quase todos os outros, e esse verbo é caber. A vida inteira a gente passa tentando fazer caber. Caber o amor no tempo curto, caber a saudade no peito, caber tudo o que se quer dentro do estreito do possível. E não cabe. Nunca coube. O querer humano é maior que a vida que temos para vivê-lo, e talvez seja justamente isso o que nos faz humanos: querer mais do que cabe, esticar a mão para além do braço, sonhar com o que a carne não alcança.
A morte que me olha nos olhos todos os dias me ensina essa verdade sem cerimônia. Diante dela, fica claríssimo tudo o que não coube no querer de uma pessoa. As viagens que ficaram para depois. As palavras que se engasgaram na garganta e morreram ali, sem ar. Os abraços guardados para uma ocasião que não chegou. Os perdões adiados para um amanhã que se provou curto demais. A vida é feita também desse resto, dessa sobra de desejo que transborda os limites do que conseguimos realizar, e a gente costuma encarar isso como fracasso. Como conta que não fechou. Como dívida que se leva.
Mas eu aprendi a olhar diferente. Esse excesso que não cabe não é uma falha do projeto. É a prova de que vivemos de verdade. Quem não quis demais não amou direito. Quem mediu o desejo pelo tamanho exato do possível nunca chegou perto da explosão que é estar vivo. O que não cabe no querer é exatamente o que nos torna inteiros, mesmo incompletos, porque a completude é coisa de quem já parou, e nós, enquanto há sopro, seguimos querendo, seguimos faltando, seguimos transbordando.
E é aí que mora a coragem mais difícil de todas. Porque, depois de entender que não vai caber, que sempre vai faltar tempo, que o querer vai sempre exceder a vida, ainda assim a gente é chamada a dizer sim. Sim à dor que ainda vai chegar, sim à perda que já está marcada na agenda do corpo, sim ao amor que tem prazo – e amar com a mesma entrega de quem supõe que o outro vai durar para sempre. Dizer sim sabendo que vai doer é, a meu ver, a forma mais alta de estar vivo. É olhar no rosto do impossível e não desviar os olhos.
Vejo isso nos que se despedem. Quando já não há mais o que adiar, quando o relógio perde a importância e só restam os olhos e a mão segura, quase todos chegam a esse sim. Não a um desistir cansado, mas a uma espécie de entrega serena, de quem compreendeu que a beleza nunca esteve em caber, e sim em querer mesmo transbordando.
ANA CLAUDIA QUINTANA ARANTES é médica formada pela USP, especialista em Geriatria e Gerontologia, Cuidados Paliativos e Psicologia do luto, além de escritora.
Fonte: Vida Simples
