Estadão: A tecnologia clínica que nenhuma IA substitui

A assistência à saúde nunca contou com tantos recursos tecnológicos para apoiar diagnósticos e tratamentos. Inteligência artificial, algoritmos e novas ferramentas prometem tornar a prática médica mais precisa e eficiente. Ao mesmo tempo, cresce a discussão sobre uma competência que acompanha a profissão desde sua origem: a capacidade de ouvir, acolher e construir uma relação de confiança com o paciente.

Ana Claudia Quintana Arantes, médica geriatra, especialista em Cuidados Paliativos e uma das principais referências brasileiras em humanização da saúde, será uma das keynote speakers do Afya Summit, que ocorre no dia 29 de agosto, em São Paulo. Na ocasião, apresentará a palestra “Existe medicina sem humanização? A mais antiga e a mais negligenciada das tecnologias clínicas”.

Nesta entrevista, ela discute por que a escuta e a presença permanecem no centro da medicina, mesmo diante do avanço da inteligência artificial e de outras tecnologias.

Por que a humanização é “a mais antiga e a mais negligenciada das tecnologias clínicas”?

Existe medicina sem humanização e é isso que deveria nos preocupar. Ela acontece todos os dias, em consultórios e enfermarias, com prescrição correta, exame pedido, protocolo cumprido. Tecnicamente impecável e humanamente ausente.

Chamo a humanização de tecnologia porque ela é exatamente isso: um conjunto de saberes e habilidades que se aprende, se treina e se aplica com método. Muito antes do estetoscópio, da tomografia ou de qualquer possibilidade de intervir sobre o corpo, a medicina já tinha uma ferramenta: a presença de alguém disposto a ouvir o que dói. Essa foi a primeira tecnologia clínica de que dispusemos. Continua sendo a mais barata, a mais disponível e a mais desprezada.

Escuta e empatia influenciam os resultados do tratamento? Se sim, de que forma?

Influenciam, e a literatura demonstra isso há décadas. Uma paciente escutada adere melhor ao tratamento, relata sintomas que não apareceriam em nenhum questionário estruturado, e esses sintomas mudam a conduta. A anamnese bem-feita ainda responde pela maior parte dos diagnósticos, porque é escutada com método. Quando não escutamos, pedimos exame para compensar.

Há ainda o que a escuta evita: a obstinação terapêutica. Boa parte do sofrimento que produzimos no fim da vida vem de nunca termos perguntado o que aquela pessoa considerava uma vida que valia a pena. Não perguntamos, presumimos, e o que presumimos é sempre a nossa vontade de fazer mais.

O que nunca poderá ser substituído na relação entre médico e paciente?

A responsabilidade de estar ali quando não existe resposta. A inteligência artificial vai diagnosticar melhor que nós, e isso é uma boa notícia. O que ela não faz é sustentar o silêncio depois da frase que muda uma vida inteira. Não segura a mão. Quando uma paciente pergunta “quanto tempo eu tenho”, ela não está pedindo um número. Está pedindo que alguém fique ali com ela enquanto o chão desaparece. Isso não é processamento de informação. É testemunho.

Qual é a principal mensagem sobre o futuro da medicina?

O futuro da medicina não vai ser decidido pela tecnologia que vamos ter, mas sim pelo que escolhermos fazer com o tempo que ela nos devolver. Vamos ter máquinas que diagnosticam melhor que nós. Isso está resolvido, é questão de anos. A pergunta que fica é o que faremos com as mãos livres. Se vamos usá-las para atender mais gente em menos tempo ou para fazer aquilo que nenhuma máquina fará: ficar.

O futuro da medicina depende de nos lembrarmos por que ela existe. Ela não existe para adiar a morte, porque nessa disputa a gente perde sempre. Ela existe para cuidar de gente enquanto essa gente estiver viva. Cuidar é um verbo que exige presença, e presença é a única coisa deste ofício que não terceirizamos para nenhuma máquina.

Afya Summit 2026 Data: 29 de agosto de 2026 Local: Auditório Ibirapuera, São Paulo (SP)

Os ingressos e a programação para o Afya Summit 2026 já estão disponíveis no Sympla.

Fonte: Estadão

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