Estadão: Ana Claudia Quintana Arantes mostra sua biblioteca: ‘Sempre começo a ler os livros pelo final’

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Ana Claudia Quintana Arantes mostra sua coleção pessoal de livros Foto: Leo Souza/Estadão

Médica especializada em cuidados paliativos destaca paixão por obras de Adélia Prado e fala sobre a adaptação de seu livro ‘Histórias lindas de morrer’, que chega ao teatro em SP no mês que vem; assista

João Abel

 

Ana Claudia Quintana Arantes tem um interesse genuíno pela finitude até na hora da leitura. “Eu sempre começo um livro pelo final. Eu leio a última frase ou parágrafo e, dependendo do que estiver escrito, me interesso por conhecer o caminho que fez chegar até ali”, explica a médica geriatra, especialista em cuidados paliativos.

Ao longo da última década, Ana Claudia transformou sua experiência com pacientes no estágio final de vida em best-sellers. Em 2017, estreou nas livrarias com A morte é um dia um dia que vale a pena viver.

“Colocar ‘morte’ na capa foi algo disruptivo. E é algo do qual o Pascoal Soto [livreiro da editora Sextante à época] se orgulha muito, porque no mundo editorial era um consenso que ninguém comprava livro com essa palavra na capa. E ele decidiu bancar”.

Foi na sensibilidade dos romancistas e poetas que Ana Claudia encontrou inspiração para escrever histórias reais sobre luto. Em sua lista de referências, a mineira Adélia Prado está no topo. “É minha favorita. Seja na prosa ou na poesia, ela fala do dia a dia, de uma maneira que as pessoas compreendam. E eu também tento fazer isso”.

A médica agora se prepara para assistir à primeira adaptação de uma obra que escreveu. Histórias lindas de morrer, lançado em 2020, narra a experiência de 16 pacientes que tiveram o tratamento paliativo da geriatra antes de partirem. Agora, a obra vai ganhar os palcos de São Paulo no Teatro Vivo, com estreia no dia 2 de julho.

Ana Claudia Quintana Arantes é mais uma escritora que topou abrir as portas de sua biblioteca pessoal para a série Coleção de Livros, do Estadão, que vasculha as estantes de diferentes personalidades. Você pode assistir a todos os vídeos publicados aqui e, a seguir, conferir algumas obras destacadas pela médica ao longo do episódio:

‘Simples como você’, de Clovis Padoan

“Esse é um livro que ganhei da família de um paciente que cuidei. Eu fui cuidar desse senhor na cidade dele, interior do Paraná, e a gente criou um vínculo muito forte. No último dia de vida dele, eu cuidei à noite, a madrugada toda, e ele faleceu. E aí a família me deu o livro que ele escreveu pra contar a história de vida aos filhos e netos. Foi um privilégio tê-lo conhecido.”

‘Uma hora de conexão’, de Irvin D. Yalom e Benjamin D. Yalom

“Irvin Yalom é escritor best-seller e também terapeuta. Já está numa idade avançada, acima dos 90 anos, e depois da morte da esposa, ele decidiu parar de atender pacientes e escrever. E muitas pessoas pediram para que ele voltasse a atender. Só que ele reconhece que tem problemas de memória e então decide abrir para apenas uma hora de sessão, em encontros únicos. E essas experiências viraram esse livro, que eu estou lendo bem devagar, porque fico arrepiada só de contar a história.”

‘O filho de mil homens’, de Valter Hugo Mãe

“Esse é um que já li, mas quero reler depois de ter visto o filme. Porque aí vale a pena revisitar já com algumas imagens formadas na cabeça.“

‘A intuição da ilha: Os dias de José Saramago em Lanzarote’, de Pilar Del Río

“É um livro da esposa do Saramago. Uma história de amor das mais lindas que tem. E ela escreve maravilhosamente bem.”

‘Cartas a um jovem poeta’, de Rainer Maria Rilke

“Adoro garimpar as edições mais antigas em sebo. Tenho uma aqui de 1951. E esse é um livro que eu leio tipo Bíblia, porque tem umas falas do Rilke que realmente abrem portas dentro da cabeça da gente.”

‘Coração e alma’, de Maylis de Kerangal

“Esse livro aqui é um livro avassalador. É a descrição de um dia em um rapaz morre afogado, surfando. E ele é doador de um coração. E aí é toda a história de quem vai operar ele, quem vai receber o coração e como o pai dele recebe a notícia. É muito bom.”

‘Inteligência social’, de Daniel Goleman

“Esse aqui também é obrigatório para quem quer viver em sociedade. O Goleman é muito incrível. Ele também escreveu ‘Inteligência Emocional’, mas este aqui é um livro que eu leio e releio, porque a gente está vivendo um momento histórico de cegueira mental. As pessoas mal conseguem enxergar dentro da cabeça delas, que dirá do lado de fora. Então mais que nunca é necessário falar das relações humanas.”

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‘O menino, a toupeira, a raposa e o cavalo’, de Charlie Mackesy

É um livro infantil que serve de letramento para a educação de crianças, mas também caso você seja uma ‘criança adulta’ mal-educada. Se todos fossem educados com esse tipo de propósito, a gente teria menos problemas. Mas hoje as pessoas preferem ler ‘Pais e Filhos’ ou seguir péssimos influenciadores nas redes sociais.“

‘Admirável mundo novo’, de Aldous Huxley

“Ideal para compreender o que estamos vivendo no mundo e pedir socorro. Você lê e pensa: ‘ele era profeta?’. Pode ser que sim.”

Fonte: Estadão

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