Ela poderia ter escolhido falar só de remédios, doenças e protocolos. Mas Ana Claudia Quintana Arantes preferiu um caminho mais profundo. Médica geriátrica, autora de “A morte é um dia que vale a pena viver”, entre outros best-sellers, ela construiu uma trajetória que não separa a técnica da emoção, o corpo da alma e o nascimento do fim.
No episódio desta semana do Pod Ser Simples, videocast da Vida Simples, ela se sentou no confortável sofá para uma conversa sobre o que poucos querem encarar: a finitude. Mas, ao contrário do que se imagina, o papo não foi “sombrio”. Foi mais parecido com um chamado para redesenhar a própria vida
A poesia que organiza o que a vida bagunça
Antes de ser a escritora que emociona milhões de leitores, Ana Claudia se define, acima de tudo, como uma leitora de poesia. É nos versos que ela encontra o que a prosa muitas vezes não alcança.
“A escrita é para mim um caminho de elaboração. Quando eu escrevo poesia, me organiza as emoções. Se eu não consigo relaxar lendo um livro de ficção, uma biografia ou qualquer outro tipo de livro, eu vou para a poesia e fico buscando até encontrar aquela que me entende.”
Ela conta que carrega consigo a poeta polonesa Wisława Szymborska, uma espécie de “companheira de alma” que ajuda a nomear o indizível. “Às vezes acontece de eu abrir o livro de cara numa poesia e pensar: ‘é essa aqui. Alguém me entendeu. Não preciso mais de uma pessoa que me compreenda, preciso de palavras que me compreendem’”, afirma Ana Claudia.
O inexorável
Um dos momentos mais delicados da entrevista ocorre quando Ana Claudia fala sobre a única certeza que acompanha toda vida humana.
“A vida é inexorável. Estou aqui parado no trânsito, eu tenho que esperar. É inevitável. Meu caminho é esse. Estou na expectativa de um resultado de exame, ele vai chegar naquele dia que tá marcado. Então eu tenho que esperar. Nesse inexorável cabe tudo, todas as angústias cabem nele. Cabe coisa boa, cabe coisa ruim. Você não tem como discutir com a vida. Você acha que tem controle, mas você não tem.”
Essa aceitação, longe de ser pessimista, é libertadora. Reconhecer o que não podemos mudar nos permite focar no que realmente importa: a qualidade da presença, a intensidade do afeto, a urgência do agora.
A presença como cuidado radical
Uma das questões mais profundas levantadas por Ana Claudia diz respeito a pacientes com doenças neurológicas avançadas – pessoas que muitas vezes são tratadas como ausentes, como se já não estivessem ali. “Elas têm algum grau de consciência”, enfatiza.
Ela conta que orientava os residentes a nunca entrarem no quarto sem se apresentar, sem pedir licença, sem fechar a porta para examinar o paciente.
“Porque existe uma pessoa lá que precisa ser respeitada, não é um corpo que não vale nada.”
E às vezes, no meio do silêncio, acontece o encontro: o paciente abre os olhos, responde, está “online”. “E aí você fala: ‘Nossa, curou’. Não curou nada. Você só estava presente”, explica.
O direito de pausar
Em um mundo que nos empurra para a produtividade incessante, Ana Claudia propõe quase uma “revolução”: a da desaceleração intencional. Ela conta que, em sua agenda, criou uma categoria especial chamada “manter livre”.
“Quando a agenda tiver livre, é que está livre. Os horários estão abertos, disponíveis para o mundo. Agora, quando é ‘manter livre’, eu não estou disponível para nada que não seja a minha própria vida. Manter livre é: eu estou ocupada pro mundo e livre para mim.”
Essa distinção, aparentemente simples, é um ato de resistência. “Tô ocupada estando livre”, resume. É um lembrete de que o tempo não precisa ser preenchido com tarefas para ter valor.
Uma concha e uma promessa
No quadro em que cada convidado traz um objeto que torna a vida mais simples ou significativa, Ana Claudia se emocionou. Ela mostrou uma concha e contou a história por trás dela: sua filha, que desde a adolescência sonhava em passar os 30 anos sozinha na Islândia, preparou-se por anos para realizar essa promessa. Juntou recursos, enfrentou medos. E cumpriu.
“Ela me trouxe uma pedrinha vulcânica de lá e disse: ‘Mãe, vou te dizer uma coisa que você me ensinou: cumpra as promessas que você faz consigo mesma’.” A concha, que estava com Ana Claudia grávida quando cantava “Sereia” para a filha, virou o símbolo dessa lição.
“Faça promessas que não dependam das outras pessoas, dependam somente de você.”
O Pod Ser Simples conta com patrocínio da Tok&Stok, da Inovar Previdência e da Verde Campo. Os episódios vão ao ar quinzenalmente no YouTube da Vida Simples. Confira!
Fonte: Vida Simples