O luto é uma experiência inevitável. Ele se manifesta sempre que precisamos reorganizar a vida depois de uma ausência definitiva. Pode ser a morte de alguém amado, o fim de uma relação, a perda de um projeto ou o término de um sonho. O luto nos atravessa e transforma, ainda que resistamos a ele.
Trata-se de um processo que envolve dimensões emocionais, cognitivas, físicas e sociais. Tristeza, choque, raiva, solidão e culpa se alternam com instantes de alívio ou anestesia afetiva. O corpo reage: aperto no peito, nó na garganta, fraqueza, insônia, boca seca, dores difusas. A mente também sofre: falhas de memória, dificuldade de concentração, descrença, pensamentos obsessivos.
Há mudanças no comportamento: isolamento, aumento no uso de álcool ou remédios, ou uma inquietação que tenta calar o vazio. Nada disso é sinal de fraqueza. É a prova da intensidade do vínculo. Quanto maior o amor, mais dolorosa a falta. Afinal, o luto é o reverso do amor que se viveu.
Mas o luto não é apenas dor. Ele também pode ser caminho de reconstrução. É o modo pelo qual a vida integra a ausência na presença da memória. Acolhê-lo significa permitir que a dor seja sentida, sem pressa para acabar. Cada pessoa tem seu tempo. Não há manual nem etapas fixas. Há apenas o desafio de atravessar a escuridão até que se possa, um dia, reconhecer a saudade como forma de amor que permanece.
E aqui está algo essencial: não deixe de mostrar que você se importa com quem está em luto. Não falte ao velório. Não se prive da experiência de fazer uma chamada que não será atendida. Não esconda seus olhos aflitos só porque não sabe o que dizer. A verdade é que nada do que for dito aliviará uma dor tão lancinante. O que importa é o silêncio presente, a companhia que sustenta.
Não se afaste sob a desculpa de “não incomodar”. Quem sofre não precisa de frases prontas. Precisa sentir que não foi abandonado. O vazio da perda se agrava quando é cercado pelo silêncio da indiferença.
Vencer a dor de perder não é derrotá-la. É atravessá-la até que ela se transforme em saudade. É seguir cuidando de si como se a pessoa amada ainda estivesse aqui, sorrindo ao ver que seguimos vivendo. A gente não ganha da dor de perder. Mas podemos, com tempo, cuidado e presença, transformar a dor em memória, em legado e em amor que continua a nos mover.
ANA CLAUDIA QUINTANA ARANTES é médica formada pela USP, especialista em Geriatria e Gerontologia, Cuidados Paliativos e Psicologia do luto, além de escritora.