Estadão: Novas tecnologias já estão mudando a prática médica

Um aparelho de ultrassom que cabe na mão já pode usar inteligência artificial para analisar imagens do coração. Sistemas de escuta transformam a conversa entre médico e paciente em registros clínicos. Relógios e sensores acompanham sinais do organismo durante dias ou meses, e novas ferramentas ampliam as possibilidades de prevenção, diagnóstico e tratamento.

Parte dessas tecnologias já chegou à rotina médica, enquanto outras avançam em pesquisa, validação ou adoção. Com essas novas capacidades, muda também a discussão sobre o papel do médico: o que acontece quando máquinas conseguem analisar imagens, organizar informações e assumir tarefas que até pouco tempo dependiam exclusivamente de pessoas?

Essa foi uma das questões discutidas no Afya Summit 2026, realizado em 29 de agosto, no Auditório Ibirapuera, em São Paulo. Promovido pela Afya, maior ecossistema de educação e soluções para a prática médica do país, o encontro reuniu médicos, estudantes, pesquisadores, gestores e especialistas. Em sua terceira edição, o evento teve como tema “Da revolução tecnológica à revolução humana”.

Tecnologia a favor da saúde

Na abertura da programação científica, Daniel Kraft, médico e futurista da NextMed Health, ligado à Stanford, mostrou recursos que já começam a mudar a assistência e outros que podem ganhar espaço nos próximos anos. Para ele, o avanço da inteligência artificial não diminui a importância do médico e pode, ao contrário, abrir espaço para aquilo que a tecnologia não entrega sozinha.

“IA não é a estratégia. É um amplificador que pode potencializar a parte humana do cuidado”.

Daniel Kraft

Ao assumir tarefas repetitivas e apoiar a análise de informações, esses sistemas podem liberar tempo para atividades que dependem de julgamento clínico, comunicação, empatia e conhecimento das particularidades de cada paciente.

Gustavo Meirelles, radiologista e vice-presidente médico e de relações institucionais da Afya, destacou que o acesso também precisa acompanhar os avanços tecnológicos. Para que essas ferramentas sejam incorporadas à assistência, precisam chegar aos serviços e profissionais que hoje têm menos acesso a elas. “Precisamos fazer com que novas tecnologias não apenas cheguem, mas para todos, portanto, sejam ferramentas inclusivas”, afirmou.

Mais dados sobre cada paciente

Uma consulta ou um exame oferece um retrato da saúde naquele momento. Dispositivos digitais podem acrescentar informações reunidas durante dias, semanas ou meses e revelar mudanças que uma medição isolada não mostraria.

A frequência cardíaca ajuda a entender a diferença: enquanto um registro mostra como o coração estava batendo naquele instante, uma sequência permite conhecer o padrão habitual de uma pessoa e perceber quando algo começa a mudar. A inteligência artificial pode analisar esses dados e identificar alterações que mereçam atenção.

Kraft chama essa abordagem de saúde antecipatória: usar informações acumuladas ao longo do tempo para reconhecer sinais precoces e, quando possível, agir antes do aparecimento dos sintomas ou do agravamento de uma doença.

Nos próximos anos, diferentes fontes de informação poderão ser analisadas de forma cada vez mais integrada. A genômica já permite investigar características relacionadas ao risco de doenças e à resposta a medicamentos. Já os gêmeos digitais, modelos virtuais construídos com dados de uma pessoa, são estudados para simular a evolução de determinadas condições e possíveis respostas a intervenções.

Para Kraft, a tendência é que exames, histórico clínico, características genéticas e informações produzidas continuamente por dispositivos sejam cada vez mais analisados em conjunto.

“Não queremos simplesmente entregar ao médico todos os dados genômicos e digitais de um paciente. Precisamos transformar dados multimodais em informação útil, e no momento certo”, afirmou.

IA na rotina médica

Algumas ferramentas já estão sendo usadas na prática médica. Eduardo Lapa, cardiologista e diretor médico da Afya, mostrou como sistemas podem auxiliar diferentes etapas do raciocínio clínico: diante de um caso complexo, a ferramenta pode sugerir hipóteses diagnósticas, indicar exames que ajudem a diferenciá-las e apoiar a interpretação dos resultados.

Isso não significa que qualquer sistema capaz de responder a uma pergunta possa orientar um diagnóstico ou tratamento. Um chatbot de uso geral, explicou Lapa, não foi desenvolvido nem validado para essa finalidade. Ferramentas de apoio clínico precisam ser criadas para usos médicos específicos, ter seu desempenho testado e atender a exigências de segurança e regulação.

Guilherme Rodrigues, oftalmologista e professor da Afya, falou sobre uma tarefa comum nos consultórios: preencher o prontuário. Sistemas de escuta ambiente já conseguem acompanhar a conversa durante a consulta, organizar as informações e preparar registros e documentos para posterior conferência.

Para Rodrigues, importa também o que se faz com o tempo poupado. Se precisa digitar menos, o médico pode olhar mais para o paciente, ouvi-lo com atenção e explicar melhor o diagnóstico e os próximos passos. Como o sistema pode errar ou omitir informações, porém, os documentos precisam ser conferidos pelo profissional.

Dados de saúde ainda estão dispersos

A capacidade de analisar informações depende, antes de tudo, de ter acesso a elas. Na saúde, exames, resultados laboratoriais e registros clínicos ainda podem ficar distribuídos entre hospitais, laboratórios e clínicas que utilizam sistemas diferentes.

Jacson Barros, especialista em saúde digital da Amazon Web Services (AWS), abordou a interoperabilidade, nome dado à capacidade desses sistemas de trocar e utilizar informações. Um exame realizado em um serviço, por exemplo, pode ajudar em um atendimento posterior em outro local, desde que os dados possam ser compartilhados de forma adequada.

Essa integração permite ao médico consultar antecedentes e amplia as informações disponíveis para análise. Um algoritmo não consegue considerar um exame anterior ou um dado clínico relevante se não tiver acesso a ele.

Olhar, ouvir e tocar

Para Drauzio Varella, médico oncologista e escritor, os avanços tecnológicos não mudam uma característica essencial da medicina: a relação entre médico e paciente. Ouvir, observar e examinar continuam fazendo parte do atendimento, mesmo quando novas ferramentas passam a apoiar o diagnóstico e outras tarefas.

“A medicina é uma profissão necessariamente humana. Medicina se faz com as mãos. Se você não toca no doente, não completa o ato médico.”

Drauzio Varella

Isso não impede Varella de recorrer à tecnologia em seu próprio trabalho. Ele contou que usa inteligência artificial para pesquisar trabalhos científicos relacionados aos casos que atende e localizar evidências que, pelos métodos tradicionais, exigiriam muito mais tempo de busca.

Varella define a medicina como ciência e arte. O conhecimento científico oferece caminhos, mas cabe ao médico decidir como aplicá-los à pessoa que está diante dele.

Drauzio Varella esteve presente no Afya Summit 2026
Drauzio Varella esteve presente no Afya Summit 2026 Foto: @newtonsantos

O paciente não é só a doença

Ana Claudia Quintana Arantes, médica e escritora com atuação em cuidados paliativos, defendeu que conhecer a doença é apenas uma parte do que o médico precisa saber sobre quem está tratando.

“Humanizar é deixar de olhar o outro como objeto.”

Ana Claudia Quintana Arantes

Para mostrar o que isso significa, ela contou a história de uma paciente com câncer que pensava em interromper a terapia. Os exames indicavam redução do tumor, mas, durante boa parte do mês, ela convivia com náuseas, fraqueza e dificuldade para manter a rotina. O resultado era positivo do ponto de vista do tratamento, mas a paciente já não sabia se queria continuar vivendo daquela maneira.

A situação colocava diante do médico uma pergunta que os exames, sozinhos, não poderiam responder. Era preciso considerar a resposta do tumor, mas também os efeitos do tratamento, a qualidade de vida e aquilo que aquela mulher estava disposta a enfrentar.

Ana Claudia Arantes em sua palestra no Afya Summit 2026
Ana Claudia Arantes em sua palestra no Afya Summit 2026 Foto: @newtonsantos

Para Ana Claudia, conhecer a doença e as evidências não basta. O médico também precisa ouvir o paciente e compreender o que importa para ele antes de decidir os próximos passos.

O que continua nas mãos do médico

A inteligência artificial já assume algumas tarefas, enquanto sensores e outras tecnologias ampliam as possibilidades de acompanhamento, diagnóstico e tratamento. Transformar essas informações em uma decisão clínica, porém, exige mais do que processar dados.

No Afya Summit 2026, os avanços tecnológicos dividiram espaço com uma discussão sobre o papel do médico diante dessas novas ferramentas. Cabe ao profissional avaliar o que faz sentido para cada pessoa, explicar as alternativas, ouvir suas preferências e assumir a responsabilidade pela conduta.

Quanto mais tarefas puderem ser delegadas à tecnologia, mais importante se torna aquilo que continua nas mãos de quem cuida.

A terceira edição do Afya Summit contou com o patrocínio da Laerdal, empresa líder mundial em educação na área de saúde e treinamento de reanimação, e da Opella, farmacêutica focada em saúde do consumidor, detentora de marcas conhecidas globalmente como Dorflex, Allegra, Novalgina, entre outras.

Fonte: Estadão

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