Pulsa: Brasil não está preparado para a morte assistida, avalia Ana Claudia Quintana Arantes

Referência nacional em cuidados paliativos, Ana Claudia é autora de livros de sucesso. Foto: Leo Souza/Estadão

PORTO ALEGRE* – A ida de uma brasileira com doença neurodegenerativa à Suíça, em abril, para realizar suicídio assistido fez com que o tema voltasse à tona no País. Por aqui, a prática não é permitida.

Entidades que discutem o direito à autonomia no fim da vida argumentam que pessoas conscientes que estejam sofrendo de modo insuportável devido a doenças terminais ou incuráveis, incapacitação grave ou irreversível, ou padecimento decorrente de envelhecimento avançado deveriam poder escolher uma morte digna.

A médica geriatra e escritora Ana Claudia Quintana Arantes, porém, é contra a morte assistida no Brasil. Para ela, o País não está preparado para ter essa discussão quando ainda não garante cuidados básicos para todos, incluindo diagnóstico precoce e tratamentos eficazes.

Em um cenário em que mais da metade dos pacientes oncológicos começa o tratamento com a doença avançada, oferecer a morte como saída não é uma escolha justa, na visão da autora de livros como “A morte é um dia que vale a pena viver”, “Cuidar até o fim” e “Histórias lindas de morrer”.

Ana Claudia argumenta que despender recursos públicos para morte assistida significaria tirar dinheiro de outras áreas da saúde que precisam de mais investimentos.

“Num país do tamanho do nosso, não temos o direito de tirar uma remota possibilidade de cuidado para desviar dinheiro para matar. Não existe esse recurso na saúde”, defende a médica, que palestrou no Brain Congress – Congresso de Cérebro, Comportamento e Emoções, em Porto Alegre (RS).

Ela afirma ainda que alguns locais do mundo que permitem a prática não possuem critérios rigorosos, como a exigência de uma avaliação psiquiátrica. “Quantas pessoas morreram com transtorno psiquiátrico? Quantas pessoas eram narcisistas, tinham transtorno borderline e fizeram suicídio assistido?”, critica.

Vale lembrar que o suicídio assistido ocorre quando o médico prescreve uma combinação de drogas em doses letais e o paciente administra as medicações a si mesmo. Já na eutanásia, é o médico quem administra os remédios.

É importante ressaltar ainda que qualquer pessoa com doença grave ou que ameace a continuidade da vida deveria ser acompanhada por uma equipe de cuidados paliativos tão logo o diagnóstico, mesmo que ainda haja intenção curativa, como afirma o Ministério da Saúde. Na prática, porém, apenas cerca de 14% das pessoas que precisam de cuidados paliativos têm acesso a essa abordagem de alívio do sofrimento e melhora da qualidade de vida, segundo estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS), e a oferta acaba voltada para aquelas em fim de vida.

Veja a entrevista abaixo:

Qual a sua visão sobre morte assistida?

Eu não sou contra, conceitualmente, mesmo porque não tenho condição de avaliar um fardo que não carrego. Mas é preciso tomar cuidado porque existe uma “macrodecisão” de ter a morte assistida disponível, só que as “microdecisões” implicam mudanças culturais, estruturais e até da própria prática médica.

E especificamente sobre a adoção dessas práticas no Brasil?

A maior parte dos brasileiros não tem acesso sequer a diagnóstico e tratamento. Ensinam as mulheres a fazer o autoexame, elas detectam o nódulo, vão procurar ajuda e, entre detectar o nódulo e começar um tratamento, a doença espalhou. Não existe diagnóstico precoce para todo mundo. Mais de 50% das pessoas com câncer no serviço privado têm acesso quando a doença já está espalhada (segundo estudo de 2023 com 132 mil pacientes no Rio Grande do Sul). No SUS, em torno de 60% das pessoas chegam já com doença avançada (dados de 2019 a 2021 do Radar do Câncer com base no DataSUS, do Ministério da Saúde).

E isso tudo (o debate sobre morte assistida) está acontecendo no mundo de um jeito totalmente atropelado. Muitas pessoas não passam por uma avaliação psiquiátrica antes. Quantas pessoas morreram com transtorno psiquiátrico? Quantas pessoas eram narcisistas, tinham transtorno borderline e fizeram suicídio assistido? É muito bonita a bandeira da (morte com) dignidade, belíssima, mas é uma faca que está no meio das asas dos anjos. Então, pessoalmente, não sou contra, mas como cidadã não posso apoiar.

Como isso se relaciona com os cuidados paliativos?

Eu não concordo que (o médico que vai prescrever ou administrar a medicação para morte assistida ou eutanásia) seja paliativista, porque isso vai contra os princípios de cuidados paliativos. É um erro conceitual confundir — até me espanta que paliativistas façam isso —, porque o princípio dos cuidados paliativos diz “não apressamos, nem adiamos a morte”. Então, a menos que mudem esses princípios, neste momento, não se pode confundir. E aí como você vai mudar a estrutura de formação de um jovem que busca medicina para curar pessoas, se ele já tem dificuldade de aceitar o alívio dos sofrimentos quando a morte é inevitável? Imagine ter de fazer com que esses profissionais mudem completamente a visão deles, de não só aceitar a morte como provocar a morte como um ato médico. Isso não é simples, não muda por causa de uma lei.

Há um movimento que defende que poder escolher a morte, quando se está sofrendo e não há cura, é a única forma de morrer com dignidade, e que apenas pessoas com dinheiro têm essa oportunidade de viajar para locais em que a prática é permitida. Você compartilha dessa visão ou acha que essa não é a única forma?

Eu penso que a gente tem essa situação em grande parte do mundo, o Brasil é só mais um que tem o mesmo problema da grande maioria. Se a gente exigir que o governo pague a morte das pessoas, esse dinheiro vai sair do cuidado porque a gente não é capaz nem de exigir que as pessoas sejam tratadas. Então, a pessoa não briga para ser tratada e vai brigar para ser morta? Não fecha essa equação. Não faz sentido. Então, é só quem tem dinheiro que vai (ter uma morte digna nesses casos)? É verdade, só quem tem dinheiro.

E aí dizem “essas pessoas não podem esperar”, mas as pessoas que estão morrendo de dor nos hospitais também não podem esperar, e não está sendo feito nada em prol disso, porque a morfina não está disponível no posto de saúde para as pessoas pegarem, elas têm que conseguir uma vaga no hospital para ter alívio da dor. Então, eu estou olhando para essas pessoas, que são maioria. Num país do tamanho do nosso, não temos o direito de tirar uma remota possibilidade de cuidado para desviar dinheiro para matar. Não existe esse recurso na saúde.

O que falta nos médicos que trabalham direta ou indiretamente com cuidados paliativos e com doenças terminais?

Falta a qualificação de comunicação, um raciocínio bioético complexo não binário. Falta saber lidar com comunicação difícil, que não é só uma estratégia, um guideline com o passo a passo de como dar más notícias. Não é entrar numa conferência familiar e falar “a família tem que aceitar a terminalidade, o paciente tem que aceitar que ele não tem nenhum tratamento”. Não tem que nada, isso é binário. (O paciente tem que poder) falar sobre a morte dele, dizer o que ele quer sem ser invalidado e ser respeitado. Se o paciente quiser ir até o inferno, eu tenho que ir com ele. Vão falar “o paciente está negando (a morte)”. Ele não está negando nada. Ele sabe o que está acontecendo e ele quer esse desfecho, é legítimo que ele seja ouvido e que seja respeitado.

E entre os familiares, qual o principal desafio?

Conversar sobre isso sem precisar ficar doente. As pessoas falam para mim: “Que mórbido falar sobre isso no almoço de domingo, na pizza do sábado”. Por quê? Todo almoço de domingo termina bem na sua casa? Que interessante, que família diferente. Dá menos briga (do que falar de política), você sai menos aborrecido. E não é mórbido. Mórbido é você fingir que não tem um elefante branco. (É preciso) falar sobre isso sem a necessidade de estar doente. Se acontecer uma fatalidade, você sofrer um acidente e tiver morte cerebral, se você não chegar para sua mãe e para seu pai e falar “eu quero fazer doação de órgãos”, “se o quadro for irreversível, eu não quero ter a expectativa do milagre através de coisas que façam meu corpo sofrer” (não vão saber da sua vontade).

E adianta assinar em vida um documento especificando os desejos?

Numa diretiva antecipada de vontade, por exemplo, se você disser que não quer ser submetida ao tratamento fútil, que não vai te devolver vida, nem qualidade, nem dignidade, eu vou respeitar a sua vontade. Se a sua família fala que vai me processar porque quer que eu faça tudo o possível, eu falo “não, ela deixou tudo escrito para mim, eu vou respeitar a vontade dela”. Eu posso ser processada pela família? Posso. Mas eles perdem. Porque eu tenho o documento que expressa vontade (do paciente), que é superior a qualquer representante legal.

Quais os últimos desejos de pacientes que aparecem com maior frequência ou que mais chamaram sua atenção? A equipe de saúde consegue ajudar um paciente a realizar esses últimos desejos?

Existe uma fantasia de que os últimos desejos têm relação com coisas surreais, tipo dar um mergulho no fundo do mar, voar de paraquedas, essas coisas. Não têm, isso é uma fantasia das pessoas que não estão doentes ou que estão sem noção de que estão morrendo. Então, se você quer voar de paraquedas, não pode ser seu último desejo. Você não pode deixar para quando estiver morrendo, você não vai ter energia, não vai ter força, pode estar com uma alteração muito grave que não te dê esse prazer.

O que eu vejo com muita frequência é que esses últimos desejos têm a ver com relacionamento, expressão de afeto e expressão de desejos do futuro: “tenho filhos pequenos, eu quero falar quem vai cuidar”; “tenho meus animais, quero dizer quem e como vai cuidar”; “eu amo uma pessoa que sumiu da minha vida”, e aí a equipe de cuidados paliativos se vira para encontrar ela. É isso que a gente se ocupa de fazer. “Eu quero casar”. Então, casamentos, batizados, noivados, tudo isso é possível de fazer em um leito de morte.

O livro “Histórias Lindas de Morrer” foi adaptado para o teatro em um espetáculo homônimo com relatos reais colhidos durante a carreira da geriatra. A peça estará em cartaz a partir de 2 de julho, no Teatro Vivo, em São Paulo.

Fonte: Pulsa

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